INTRODUÇÃO
A
Filosofia seria uma forma de pensamento exclusiva de alguns povos? Ou será que
cada povo elabora uma visão filosófica de mundo? Os questionamentos filosóficos
sobre a verdade, o justo, a beleza, a finitude da vida, a existência dos deuses
são de fato universais, isto é, válidos para todos independente da cultura de
cada povo ou país? E as respostas a essas indagações seriam válidas para todos
ou variariam de acordo com a cultura e o local? Existe uma filosofia africana?
Se não existe, quais seriam as causas dessa ausência? Se existe, por que não
conhecemos suas reflexões e autores? Haveria uma filosofia africana única ou
diversas tendências filosóficas dentro do continente africano? Mas, se se pode
falar de filosofia africana por que tal filosofia e seus filósofos não estão
presentes nos livros didáticos de filosofia?
FILOSOFIA AFRICANA ANTIGA
Joseph I. Omoregbe define um filósofo como "aquele que dedica boa parte de seu tempo refletindo sobre questões fundamentais sobre a vida humana ou sobre o universo físico, e que faz isso de maneira habitual", e diz que não existe nenhuma filosofia africana articulada e documentada, ainda que exista uma tradição filosófica africana. Simplificando, mesmo que não existissem filósofos africanos conhecidos, a filosofia foi, de fato, praticada na África. Uma forma de filosofia natural sempre esteve presente na África desde tempos muito antigos. Se tomarmos a filosofia como sendo um conjunto coerente de crenças, mas não como um sistema de explicar a unidade do entendimento de todos os fenômenos, então praticamente todas as culturas possuem filosofia.
A visão padrão da ascensão do pensamento filosófico (e científico) é a de que, provavelmente, ela exigiu um certo tipo de estrutura social, mas que, mesmo dada essa condição, existiria mais um conjunto de fatores necessários. A filosofia na África tem uma história rica e variada, que data do Egito pré-dinástico, continuando até o nascimento do cristianismo e do islamismo. Sem dúvida, foi fundamental a concepção do "Ma'at", que, traduzido, significa, aproximadamente, "justiça", "verdade" ou, simplesmente, "o que é certo". Uma das maiores obras de filosofia política foi o Ensinamento de Ptah-hotep, que foi empregado nas escolas egípcias durante séculos.
Filósofos egípcios antigos deram contribuições extremamente importantes para a filosofia helenística, filosofia cristã e filosofia islâmica. Na tradição helênica, a influente escola filosófica do neoplatonismo foi fundada pelo filósofo egípcio Plotino, no terceiro século da era cristã. Na tradição cristã, Agostinho de Hipona foi uma pedra angular da filosofia e da teologia cristã. Ele viveu entre os anos 354 a 430, e escreveu a sua obra mais conhecida De Civitate Dei (A Cidade de Deus) em Hipona, atual cidade argelina de Annaba. Ele desafiou uma série de ideias de sua idade incluindo o arianismo, e estabeleceu as noções básicas do pecado original e da graça divina na filosofia e na teologia cristãs.
FILOSOFIA AFRICANA NA IDADE MÉDIA
Na tradição islâmica, Ibn Bajjah filosofou junto com linhas neoplatônicas no século XII. O sentido da vida humana, de acordo com Bajjah, era a busca da felicidade, e essa felicidade verdadeira só é atingida através da razão e da filosofia, até mesmo transcendendo os limites da religião organizada. Ibn Rush filosofou segundo as linhas aristotélicas, estabelecendo a escolástica do averroísmo. Notavelmente, ele argumentou que não havia conflitos entre a religião e a filosofia, uma vez que existem diversos caminhos para Deus, todas igualmente válidas, e que o filósofo está livre para tomar o caminho da razão, enquanto que as pessoas comuns só eram capazes de tomar o caminho dos ensinamentos repassados a eles.
Ibn Sab'in (1216/1217-1271) discordou dessa ideia, alegando que os métodos da filosofia aristotélica eram inúteis na tentativa de entender o universo, porque elas não refletiam a unidade básica com Deus e consigo mesma, de modo que o verdadeiro entendimento necessário requereria métodos diferentes de raciocínio.
FILOSOFIA AFRICANA NA MODERNIDADE
Um destaque é o filósofo etíope Zera Yakob (1599-1692).[1] O ganês Anton Wilhelm Amo (1703-1759) é outro importante representante. Ele foi levado pela Companhia das Índias Orientais para a Europa, onde adquiriu diplomas nas áreas da medicina e da filosofia, chegando a lecionar na Universidade de Jena.
FILOSOFIA AFRICANA NA ATUALIDADE
Em termos de filosofia política, a independência da Etiópia e o exercício da independência dos nativos africanos frente ao colonialismo europeu serviram como gritos de guerra no final do século XIX e início do século XX, e foram determinantes para os movimentos de independência de grande parte dos países africanos durante o século XX.
O filósofo queniano Henry Odera Oruka (1944-1995) distinguiu o que ele chama de quatro tendências na filosofia africana contemporânea: etnofilosofia, sagacidade filosófica, filosofia ideológica nacionalista e filosofia profissional. Mais tarde, Oruka adicionaria mais duas categorias: a filosofia literária/artística, que teve representantes como Ngugi wa Thiongo, Wole Soyinka, Chinua Achebe, Okot p'Bitek, e Taban Lo Liyong; e a filosofia hermenêutica. Maulana Karenga (1941) é um dos principais filósofos. Ele escreveu um livro de 803 páginas intitulado "Maat, o ideal moral no Egito Antigo". Vale destacar, também, o movimento da Black Philosophy ("filosofia negra"), que estuda a cultura africana e seus reflexos por exemplo na crítica literária.
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